02 julho 2017
Gestalt Terapia com crianças: momento inicial da psicoterapia
Gestalt Terapia com crianças: técnicas ludicas #2
15 fevereiro 2017
Gestalt Terapia com crianças: técnicas lúdicas #1
15 junho 2016
OS 3 ERROS MORTAIS QUE UM PSICOTERAPEUTA DE CRIANÇAS PODE COMETER E COMO VOCÊ PODE FAZER PARA NÃO CORRER ESSE RISCO
Quando me perguntam o que eu acho mais difícil, ser psicoterapeuta de adultos ou de crianças, tenho a resposta na ponta da língua: psicoterapeuta de crianças, claro!
(Mas quem diria? Crianças são muito mais fáceis de lidar! Será???? E deve ser bem divertido também...! Sempre???)
Como psicoterapeuta com longa experiencia na clinica com crianças, adolescentes e adultos, não tenho duvidas em afirmar que a clinica de crianças constitui-se em um dos maiores desafios para o psicoterapeuta, pois suas especificidades demandam que. além de um profundo conhecimento teórico a respeito do ser humano e suas formas de desenvolvimento, ele esteja totalmente disponível para sair de sua zona de conforto apoiada na racionalidade, nos preceitos técnicos e no uso da linguagem verbal.
(Será tão fácil assim sair da zona de conforto???)
A clinica com crianças, particularmente sob a ótica da abordagem que utilizo - a Gestalt Terapia - convida o psicoterapeuta a usar a linguagem lúdica em detrimento da linguagem verbal, a utilizar o corpo inteiro em movimento e gestos em detrimento das palavras e a olhar a criança como parte de um todo mais amplo que é a família, instituições e cultura da qual ela faz parte.
(Temos pelo menos 2 desafios aí:"falar" em uma linguagem que não é a nossa, a "de adulto" e lidar com as diversas pessoas que cercam a criança e que contribuem para a manutenção de suas dificuldades...)
Muitos psicoterapeutas iniciantes ( e não só eles...) experimentam sentimentos que vão de um verdadeiro pavor a um leve incomodo ao começarem a trabalhar com crianças. Outros nem cogitam a possibilidade de atuar junto as crianças, por considerarem tal clinica difícil ou frustrante.
("Não consigo me comunicar com a criança"; "Os responsáveis retiram a criança da psicoterapia" ; etc)
Porém, a maioria que vence a resistência e envereda pelo caminho da infância e suas questões, muitas vezes incorre em particularmente 3 erros mais comuns e que podem ser mortais, ou seja, podem colocar todo o trabalho por água abaixo!
E quais seriam esses erros?
- CONVERSAR
- IGNORAR A IMPLICAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS
- USAR TÉCNICAS SEM CONTEXTO
Que fique estabelecido aqui, agora e sempre: crianças não gostam de conversar. Quanto menos idade a criança possuir, mas certeira é essa afirmação. Particularmente se o "conversar" em questão é uma série de perguntas realizadas por um adulto que quer falar de algo sobre o qual a criança não quer falar, com palavras que muitas vezes ela não entende e exigindo dela recursos cognitivos e linguisticos que ela não possui.
É importante lembrar sempre que a capacidade verbal é algo que está em desenvolvimento nas crianças e, portanto, não é o seu "forte".
Dizer para uma criança que ela vai ao psicoterapeuta para conversar acaba resultando em crianças que chegam a terapia e reproduzem o discurso dos pais, como papagaios, e tão logo se livram de tal "tarefa", cortam o assunto e tentam fortemente fazer outra coisa que não seja falar sobre isso,o que muitas vezes aparece sob a forma de "não sei" variados ou de silêncios solenes diante das insistentes perguntas e tentativas do psicoterapeuta de sustentar a conversa.
A insistência nesse tipo de interação geralmente resulta em crianças absolutamente resistentes na relação com o psicoterapeuta, por vezes inclusive se recusando vir a sessão terapêutica, ou então a "crianças-robôs" , boazinhas, que fazem o que o psicoterapeuta quer, reproduzindo sua forma básica de lidar com os adultos fora da terapia, sem que nenhuma transformação efetiva aconteça no processo terapêutico
Se é certo que crianças não conversam como adultos, sabemos também que elas tem como prioritárias um outro tipo de conversa: a conversa lúdica.
Crianças "falam", conversam, se expressam, se mostram e comunicam através de suas formas de brincar e jogar. A linguagem lúdica é a forma primordial das crianças se relacionarem com o mundo e assim precisa ser também na psicoterapia.
Portanto, para conversarmos com a criança, precisamos nós, os psicoterapeutas, mudar a "chave" da forma de comunicação. Somos nós que vamos encontra-la na sua linguagem lúdica, da fantasia e do jogo. E não ao contrário....
E o segundo erro mortal?
Esse é clássico e fatal. Talvez o mais fatal de todos. E certamente o mais conhecido de todos os psicoterapeutas de crianças.
É o IGNORAR A IMPLICAÇÃO DOS RESPONSÁVEIS na eclosão e manutenção dos sintomas e dificuldades apresentados pela criança.
(Mas Luciana....não são eles mesmo que levam a criança? os sintomas não fazem parte da queixa dos pais?? como eles poderiam estar colaborando para isso...???)
A resposta é: eles não sabem que estão implicados!
E nossa tarefa é mostrar isso para eles....
Uma criança não é um ser que nasce e se cria dentro de uma bolha estéril. Ela faz parte de um campo de forças relacionais que interagem e se afetam mutuamente o tempo inteiro. O que equivale a dizer que a forma como a criança se apresenta nesse momento, com tudo que ela tem, é fruto dessa interação ininterrupta com seu ambiente, que inclui naturalmente as pessoas mais próximas e suas experiencias relacionais em todos os contextos que frequenta e experimenta.
Em outras palavras, todas as formas de ser e estar no mundo que a criança desenvolve (satisfatórias ou não) são construídas em função dessas relações, o que significa que muitas vezes as crianças estão, com seus sintomas, reagindo a situações e relações que por elas são vivenciadas.
Os adultos envolvidos na situação, na maioria das vezes não se dão conta de como contribuem para a questão apresentada pela criança; são "pontos cegos" que cabe ao psicoterapeuta identificar e apontar.
Se não fizermos isso, corremos o risco de trabalhar em prol de um objetivo enquanto os responsáveis, inadvertidamente, sem perceberem, puxam para o lado contrário.....e, dessa forma, a psicoterapia da criança não tem resultados satisfatórios, algo fica "emperrado", impedindo a mudança.
Uma outra consequência de tal erro, é que se não trabalhamos a implicação dos responsáveis nos comportamentos e sintomas apresentados pela criança, no momento em que a psicoterapia começa a possibilitar que a criança transforme seus comportamentos, esses mesmos responsáveis se ressentem da mudança e começam a perceber a psicoterapia como algo ameaçador ou que esta "piorando" a criança.
Isso se dá porque nem sempre a criança muda da forma como os responsáveis desejam ou muitas vezes tais mudanças deixam em aberto necessidades, dificuldades e "feridas" dos mesmos, que antes eram mascaradas pela "doença" da criança.
Por isso é fundamental que ao trabalharmos com uma criança, JAMAIS deixemos de acompanhar os responsáveis ao longo do processo terapêutico, para auxilia-los a enxergar sua participação na questão da criança, por um lado, e a lidar com as mudanças que forem acontecendo, por outro.
Se assim não o fizermos, corremos o sério risco de amargarmos uma série de processos terapêuticos interrompidos "do nada" e nos encontrarmos em situações onde a interferência dos responsáveis é tão grande que não nos permite trabalhar.
Sendo assim, precisamos substituir o foco NA CRIANÇA pelo foco NAS RELAÇÕES que ela estabelece.
E, por fim, o terceiro erro mortal....
Quando falo de USAR TÉCNICAS SEM CONTEXTO, estou falando de psicoterapeutas que, para se assegurarem que estão fazendo o melhor em sua atuação, fazem inúmeros cursos, leem uma serie de livros, compilam técnicas e mais técnicas ( e nem sempre elas combinam entre si.....) e preenchem a sessão terapêutica com uma serie de "atividades", sem levar em conta o desejo da criança e aquilo que ela mesmo aponta e que surge espontaneamente na sessão.
Usada dessa forma, toda e qualquer técnica torna-se um exercício, uma atividade "aplicada" a situação terapêutica sem que o fluxo possível da criança seja respeitado, fazendo da relação terapêutica algo bem parecido com todas as outras relações que a criança estabelece fora da terapia, a saber, relações verticais, onde existe sempre uma autoridade que sabe o que é melhor para a criança, que decide o que ela vai fazer e como vai fazer, que escolhe o que deve ser investigado, trabalhado, melhorado.
O resultado disso é muitas vezes uma criança que se recusa a fazer as coisas propostas pelo psicoterapeuta, simplesmente porque esse não é o seu foco, sua energia não está ali, o seu caminho para chegar as suas questões e dificuldades não é esse.
A unica coisa que o psicoterapeuta consegue é resistência e desconfiança, por vezes travando uma "batalha" com a criança e, com isso, perdendo completamente o proposito da psicoterapia que deveria ser o de acolher a criança tal como ela se apresenta e acompanha-la no desdobramento de seu mundo interno, seus padrões e suas formas habituais de se relacionar, no tempo de cada uma, na linguagem lúdica, e a partir daquilo que a criança escolhe fazer na sessão terapêutica.
Em algumas outras situações a criança simplesmente faz o que é pedido, mas sem nenhum engajamento, sem nenhuma energia e, portanto, sem abrir possibilidades para uma real transformação. Pelo contrário, a criança "boazinha", reproduz seu padrão relacional submisso, sua dificuldade de efetuar escolhas e de dizer "não" para aquilo que não serve para ela ( o que certamente ela faz também fora da terapia ) e com a ajuda do psicoterapeuta!!!!
Mas ai você pode me perguntar: e como usar as técnicas então?
As técnicas para auxiliar a criança a se conhecer mais e construir novas possibilidades de ser e estar no mundo tem o seu lugar, mas precisam obedecer o critério máximo: a orientação da própria criança, daquilo que ela escolhe e aponta como possível na sessão terapêutica, o que significa dizer que utilizamos técnicas dentro do contexto que a criança nos traz, tanto em termos de recursos lúdicos escolhidos como de assuntos a serem abordados e jamais impomos qualquer atividade ou recurso sem que ela tenha se engajado inicialmente e por livre escolha na proposta.
Sendo assim, precisamos substituir o USO DAS TÉCNICAS SEM CONTEXTO e trazidas a priori, pelo acompanhar as crianças em suas escolhas e USAR AS TÉCNICAS PARA EXPANDIR, DESENVOLVER E ESMIUÇAR o que está sendo trazido pela criança.
Se ficarmos atentos a esses 3 tópicos:
- Estabeleceremos um vinculo forte de confiança e aceitação com a criança, pré requisito básico para que ela deixe que entremos no "seu mundo"
- Ganharemos a confiança e colaboração dos adultos que cercam a criança, agilizando o tempo do processo terapêutico e garantindo mudanças mais expressivas e significativas para a criança e os adultos envolvidos.
- Eliminamos drasticamente a chance de interrupções precoces e abruptas do processo terapêutico.
O que você achou desse tópico? Seus comentários e perguntas são muito importantes por que me fornecem orientação para continuar escrevendo sobre tópicos relevantes para você!
Portanto, deixe seu comentário, critica ou pergunta.
Caso você conheça alguém que pode se beneficiar desse conteúdo, marca essa pessoa se você chegou aqui através do Facebook, ou compartilha nas demais redes sociais das quais você faz parte!
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16 maio 2014
GESTALT TERAPIA COM CRIANÇAS: TEORIA E PRATICA : o livro
Finalmente, depois de muitos percalços, saiu pela Editora Summus a nova edição do livro Gestalt-Terapia com crianças: teoria e prática!!

Você o encontra em todas as livrarias (eis algumas: Saraiva, Cultura, FNAC) e no site da Editora Summus!
A versão em e-book pode ser encontrada no site da Amazon.
25 setembro 2013
A banalização do diagnóstico de TDAH em crianças
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de ritalina, a
"droga da obediência". O que está acontecendo? Uma epidemia de TDAH?
Estamos falando de um vírus Uma gripe? Quando normas sociais viram normas
neurológicas, colocamos na criança a responsabilidade de uma situação que a
transcende e mascaramos o seu sofrimento transformando-as em zumbis. Com isso,
família e escola abstêm-se do incomodo de olhar para cada criança com um ser
único que, através da sua "agitação" ou " falta de
concentração" revela suas possibilidades de ajuste a um mundo que ainda
estão descobrindo e diante do qual precisam se posicionar. A "doença"
é sempre fruto de um campo de forças que conjugam muitos elementos e a
enunciação de um "diagnostico" é antes de mais nada uma tentativa de
controle e erradicação de uma manifestação genuína do ser.
Para os pais que, muitas vezes ficam totalmente perdidos em
meio a tantas falas de "especialistas" e sem a menor noção de como
encaminhar queixas e demandas em relação ao comportamento de seus filhos! As
crianças precisam de olhar, cuidado e compreensão! Nem sempre, como pais,
conseguimos realizar isso de forma satisfatória, porque as vezes simplesmente
não sabemos o que fazer!! Essa é a hora de procurar ajuda profissional. Porém,
não se enganem: qualquer promessa obvia e rápida de "ajuste" e
"adequação" de seu filhos as "normas do mundo", será
realizada as custas de um enorme preço a ser pago pela criança!
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09 setembro 2013
Sorteio livro GESTALT-TERAPIA COM CRIANÇAS; TEORIA E PRATICA - ultimo exemplar, autografado!
Ola pessoal
Como ja informei para vocês em outro momento, o livro GESTALT-TERAPIA COM CRIANÇAS: TEORIA E PRATICA encontra-se esgotado e sera em breve reeditado por uma nova editora, ainda sem data provável de publicação.
Como ja informei para vocês em outro momento, o livro GESTALT-TERAPIA COM CRIANÇAS: TEORIA E PRATICA encontra-se esgotado e sera em breve reeditado por uma nova editora, ainda sem data provável de publicação.
Assim que tivermos uma data provável, começaremos a divulgar por aqui para que vocês possam se organizar e finalmente adquirir o livro!
Enquanto isso e diante de muitos pedidos de um ultimo exemplar, um exemplar "perdido" ou "esquecido", vou me desapegar do ultimo exemplar que tenho!
Como ainda não tenho o poder de multiplicar livros e também não gostaria de escolher a pessoa para quem ele seria vendido, resolvi realizar um grande sorteio, obedecendo as seguintes regras:
1. Compartilhe o blog em suas redes sociais (Facebook, Twitter).
http://gestaltcomcriancas.blogspot.com.br
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2. Curta E compartilhe a pagina do Facebook Gestalt-Terapia com crianças em seu perfil do facebook.
https://www.facebook.com/gestaltcomcriancas
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3. Deixe seu nome nos comentários do link do sorteio na pagina Gestalt Terapia com crianças com o seguinte código do lado GTCs
4. Doe qualquer valor para o Gestalt-Terapia com crianças: teoria e pratica através desse botão.
O sorteio sera realizado no dia 19/09/2013 as 21:00 e divulgado imediatamente no Facebook.
O vencedor recebera seu exemplar em casa, pelo correio, com as despesas de frete pagas, em aproximadamente 5 dias uteis.
O sorteio sera realizado no dia 19/09/2013 as 21:00 e divulgado imediatamente no Facebook.
O vencedor recebera seu exemplar em casa, pelo correio, com as despesas de frete pagas, em aproximadamente 5 dias uteis.
06 junho 2013
GT com crianças: TDAH, diferenças culturais e abordagem holistica do ser humano
O sujeito que diagnostica, o faz a partir de seu fundo de experiências, que engloba não só seu conhecimento teórico-técnico-cientifico como suas crenças, valores, preconceitos, mergulhado totalmente numa cultura que o perpassa e que também o constitui. Assim, a atribuição de sentido que o diagnóstico clássico confere, depende de quem olha.
Desde que o mundo é mundo o normal e o anormal foram definidos de muitas formas e, assim, em cada época, sociedade, cultura, teremos sempre o "desviante" da vez.
Faz tempo que trago esse tipo de indagação tanto para minha prática clínica quanto para minha tarefa de transmissão de uma abordagem de trabalho psicoterapêutica. Há anos vejo desfilarem diagnósticos "da moda" ou ainda diagnósticos "epidêmicos", como se de repente uma grande parcela da população fosse atacada por um vírus psicopatológico que, rapidamente, torna-se o vilão em cima do qual tudo é depositado.
Olhar raso e fácil para uma sociedade que quer resolver seus problemas num clique ou em pílulas milagrosas, classificando e compartimentando pessoas para mantê-las isoladas com os seus problemas e, assim, eximir-se de toda e qualquer responsabilidade nas produções de comportamentos dos indivíduos ditos "doentes".
Tal situação atinge em cheio as crianças, que recebem toda espécie de rótulos numa tentativa de pais, professores e profissionais de saúde isolarem NA CRIANÇA todos os elementos de uma patologia que é relacional e contextual, construída em um campo muito mais amplo do que o "cérebro" ou "psiquismo" da criança em questão.
A recente postagem compartilhada largamente nas redes sociais, intitulada "Por que as crianças francesas não tem déficit de atenção" traz dois pontos interessantes para essa discussão, que eu gostaria de comentar.´
O primeiro ponto, ao compararem as crianças americanas e francesas e o nível de "incidência" do bonitinho da vez, o TDAH, em cada uma das sociedades, nos mostra claramente que o que se vê depende do olhar de quem vê e dos interesses e determinantes desse olhar. Ver o problema na criança e, sobretudo, no seu " cérebro", isenta toda uma sociedade de sua responsabilidade na formação e desenvolvimento das crianças e alimenta uma indústria farmacêutica gigante que ganha milhões oferecendo formulas mágicas de se aquietar o sopro de vida que pulsa e teima em existir, da melhor maneira que encontra, em cada uma das crianças "diagnosticadas" com TDAH.
O segundo ponto, tão polemico quanto, é o que diz respeito as diferenças de estilos parentais na educação das crianças e que nos aponta claramente a importância dos aspectos citados no inicio do texto no que diz respeito ao caráter relacional e contextual de qualquer "patologia".
A afirmação de que as crianças francesas tem desde cedo um contorno claro, na forma de rotinas, regras e limites e, que portanto, não apresentariam "sintomas" atribuídos ao TDAH, é bastante significativa. Isso nos convida a repensar os significados que comumente damos as palavras agitação, concentração, limites e permissividade, dentre outras. Ou seja, nos convida a nos implicarmos na produção de comportamentos X, Y ou Z, apresentados pela criança.
Possivelmente, algumas objeções ao estilo parental francês poderiam ser logo levantadas por nossa sociedade tão americanizada e tão temerosa de infringir "traumas" as crianças, como por exemplo no que diz respeito ao valor "educativo" de uma palmada ou ao fato de se deixar o bebe chorando no berço.
Definitivamente não compartilho da crença que "um tapinha não dói" e creio que a questão do choro da criança precisa ser melhor discutida, porque há choros e choros e, portanto, é perigoso estabelecer modelos de "como fazer" sem que se consiga discriminar a função desse choro na relação e contexto daquela família.. (isso também fica para outra postagem!)
No entanto, creio firmemente no valor da rotina e estabelecimento de normas, regras e horários para as crianças, particularmente para as crianças até 7 anos, pois longe de ser "traumatizante", mostra-se extremamente organizador e tranquilizador. A previsibilidade de situações cotidianas é fundamental para a construção de uma percepção de mundo que gera calma, confiança e segurança. Saber que existem adultos que funcionam como "autoridades", ou seja, como aqueles que estão autorizados pela experiência e pelo saber a mostrar alguns dos meandros desse mundo tão grande e desafiador, é extremamente reconfortante para a criança.
Dessa forma, sem deixar de levar em conta a real possibilidade de um diagnóstico neurológico em alguns casos, continuo acreditando que precisamos olhar para esse fenômeno com olhos críticos e, sobretudo, ampliados para uma noção de diagnóstico que leve em consideração a interação entre elementos biológicos e psicossociais, que possa olhar para configurações e redes relacionais e não somente para exames, dosagens e sintomas.
O debate continua na rede, inclusive com replicas, treplicas e outras postagens sobre o tema. Como psicoterapeuta de crianças dentro de uma abordagem que privilegia a visão de totalidade do ser humano e trabalha com a ideia do ser em relação, creio que o mais significativo de todo o debate é justamente volta a atenção para os limites entre ciência, preconceito, rigidez e interesses comerciais, em prol realmente da saúde e bem estar das nossas crianças.
O debate continua! Sejam bem vindos para expressar suas reflexões!
P.S.: Só fazendo um parênteses, é muito curioso a quantidade de compartilhamentos, inversamente proporcional a quantidade de reflexões e comentários, o que me faz ficar indagando a respeito do motivo pelo qual as pessoas compartilham coisas, sem uma reflexão maior ou um determinado posicionamento. Para que servem informações se elas não são processadas? (bem, mas isso é assunto para outra postagem..rs)
A imagem usada veio daqui, ok?
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Rio de Janeiro - RJ, República Federativa do Brasil
12 maio 2013
Ainda sobre o equivoco da técnicas ou como se deparar com situações em que elas não valem de nada
Ao falar sobre o equívoco da primazia das técnicas no processo psicoterapêutico com crianças, destaquei a necessidade de possuirmos uma metodologia e forma de compreensão da relação terapêutica que embase nossas intervenções e crie um contorno para o eventual uso das técnicas, sempre no sentido de desdobrar o material trazido e apontado pela criança na sessão terapêutica, sem "a prioris" do psicoterapeuta.
Conhecer um rico e criativo rol de técnicas nos permite contar com um acervo mais amplo de possibilidades para lançar mão quando necessário e pertinente.
Porém, a clinica psicoterapêutica com crianças apresenta uma série de situações onde a compreensão da totalidade do processo e das relações estabelecidas entre crianças e responsáveis é fundamental para o manejo e encaminhamento das referidas situações.
Um exemplo? Posso dar vários!
Sabe aquela criança que chega pela primeira vez (ou segunda, terceira, quarta, etc) e não quer desgrudar da mãe nem por um decreto, apesar da insistência, promessas e qualquer outra coisa que o psicoterapeuta faça?
E aquela que ao ouvir o anuncio de término da sessão, faz-se de surda, inicia uma nova brincadeira, joga todo o cesto de brinquedos no chão, suplica para ficar, comunica que VAI ficar e não sai da sala nem por outro decreto?
Ok, ela entrou, mas cruzou os braços, fechou a boca e permanece amuada num cantinho, ignorando os apelos do psicoterapeuta e todas as maravilhas da sala que ele montou especialmente para esse momento!!!
Ah, sim! E o que dizer da situação onde a criança atende ao apelo do psicoterapeuta a respeito do termino da sessão, mas pretende sair do espaço levando aquilo que estava brincando para casa? (Imagina se todas as crianças em 1 semana resolverem levar um "souvenir" da sala...!)
E a situação corriqueira (e devastadora de psicoterapeutas das técnicas) em que a criança nega-se a fazer o proposto pelo animado (ou não) psicoterapeuta e a responder suas intermináveis e incomodas perguntas sobre aquilo que ela está fazendo?
Onde entram as técnicas mirabolantes quando a criança simplesmente "quer brincar" e muitas vezes com a mesma coisa, ignorando solenemente todo o resto da sala que foi comprado na Disney??
E estou exemplificando somente com situações que envolvem diretamente a criança e o psicoterapeuta...
Porque não podemos esquecer que por trás de toda criança tem um adulto que a leva e a mantém ( ou não) em psicoterapia...
O que dizer ( e fazer com) das mães que fazem caras e bocas na sala de espera e nos falam coisas entre os dentes crendo que a criança não esta percebendo?
E com aquelas que nos ligam entre uma sessão e outra para fazer toda a sorte de queixas, revelações e apelos?
E as outras ( ou as mesmas) que nos solicitam ( direta ou indiretamente) alianças contra os pais (geralmente, ex maridos) em tempos de alienação parental?
E as que esquecem (?) de nos pagar, que pechincham o preço da sessão, apesar de seus carros, roupas e bolsas que deixam nossos modelitos de psicoterapeuta-que-senta-no-chão com cara de trapo?
E os responsáveis que ao confundir a criança com um objeto eletrônico nos exigem que o consertemos em meia dúzia de sessões?
E as exigências e pressões da escola que desejando ardentemente não ter o menor trabalho com aquela criança e desimplicando-se totalmente do que se passa com ela NA ESCOLA, cobram "melhora" e "comportamentos adequados" da referida criança?
Poderia continuar listando sem parar uma grande variedade de situações pelas quais TODOS os psicoterapeutas de crianças passam, cujo manejo não está baseado na quantidade de técnicas lúdicas que ele possui em seu rol de técnicas acumuladas ( e muitas vezes simplesmente copiadas) a partir de cursos e leituras.
Todas essas situações transcendem as técnicas e demandam do psicoterapeuta raciocínio clinico, conhecimento profundo de sua abordagem e um substancial treinamento clinico supervisionado.
Sim, as técnicas lúdicas são lindas, são fofas e as vezes parecem mágicas. Mas atire a primeira pedra quem nunca passou pelas situações acima e percorreu de 1 a 100 toda a sua listinha de técnicas e chegou ao fim sem saber o que fazer!!!
02 maio 2013
O equívoco das técnicas ou como não ter a menor idéia do que está acontecendo no processo psicoterapêutico
Todo mundo quer "técnicas". Frequentemente ouço de estudantes e profissionais de Psicologia o relato acerca do descobrimento de uma "nova técnica" ou uma "técnica poderosa" para usarem/aplicarem com seus pacientes em psicoterapia.
Cursos que oferecem um sem número de técnicas, interessantes, criativas e sedutoras, costumam fazer muito sucesso, ter suas vagas totalmente preenchidas e criar uma avalanche de pessoas "querendo mais".
Ou seja, temos alunos felizes e professores idem.
Mas qual é a grande questão que se coloca?
O que costuma ficar totalmente esquecido é o lugar e o papel das técnicas dentro do processo terapêutico Lugar? Papel? Mas as técnicas não são em si a essência do processo terapêutico? Nào, não são. E quando falamos de Gestalt-Terapia, não são MESMO.
Em postagem anterior, falamos do papel da técnica dentro de uma metodologia de trabalho, embasada em uma sólida visão de homem e uma clara compreensão de seus processos de saúde e adoecimento.
Isso nos mostra que as técnicas são pequenas partes de uma totalidade que as transcende e que seu uso (e eficácia) está sempre em função da compreensão dessa totalidade.
Partindo disso, o que vemos acontecer frequentemente? Como já disse, todo mundo quer técnicas!!! E por que motivo? Creio que saber muitas técnicas que podem ser aplicadas ao paciente na psicoterapia é a melhor forma do estudante/profissional ter a ilusão de que "sabe" e, principalmente, de que está fazendo algo. Ou seja, dá uma sensação de competência e de estar "mostrando serviço".
Mas será que todos sabem o que estão fazendo? Será que todos sabem responder perguntas básicas e fundamentais do tipo:
PARA QUE estou propondo isso agora, para essa pessoa, nessa relação?
EM QUE que isso está facilitando o processo de resgate de saúde para essa pessoa?
COMO isso se insere no contexto da história de vida dessa pessoa, de suas formas habituais adoecidas e suas possibilidades relacionais nesse momento?
Creio que se não conseguirmos responder claramente a essas perguntas, para CADA PACIENTE, a cada momento do processo, certamente não temos a menor idéia do que está se passando ali e a psicoterapia vira então uma "terra de ninguém" onde vamos "aplicando técnicas" e vendo o que acontece ou nos transformamos em meros técnicos, nos retirando da relação e do campo, acreditando na falácia de que não participamos nem influenciamos o que acontece ali.
Nos tornamos então, profissionais "consertadores" de pessoas, com o agravante, particularmente se nos chamamos gestalt-terapeutas, de acreditar piamente que estamos fazendo tudo em prol do paciente.
Nesse ponto, a congruência com a abordagem que escolhemos para trabalhar ( e ter uma abordagem!!) é fundamental para salvaguardar a qualidade do processo terapêutico. Uma abordagem como a TCC, por exemplo, com sua visão de ser humano e de psicoterapia, se harmoniza de forma mais congruente com a aprendizagem e uso de técnicas do que a Gestalt-Terapia.
Em Gestalt-Terapia a primazia orientadora do processo é a RELAÇÃO e o que acontece no momento presente do encontro entre paciente e psicoterapeuta, da forma que acontece e do jeito que o paciente configura e aponta.
Se trazemos técnicas a priori, porque lemos num livro e achamos "perfeitas" ou porque fizemos um curso no fim de semana sobre técnicas maravilhosas e "profundas" , estamos certamente nos sobrepondo a experiencia vivida pelo paciente, dando um rumo totalmente nosso para a sessão e impedindo-o de trazer o que ele quer, o que ele precisa trazer, da forma como quer e pode trazer.
Ou seja, recheamos a sessão de "exercicios", lotamos a sala com um sem número de materiais e objetos sedutores, apresentamos uma ou mais "novidades" a cada sessão. sem ouvir e compreender o que essa pessoa precisa e como ela pode resgatar sua saúde e criar formas mais satisfatórias de estar no mundo.
Ao priorizarmos as técnicas em detrimento do estudo e compreensão de uma visão de homem e de uma metodologia congruente dentro de uma abordagem, nos tornamos meros aplicadores de fórmulas, que nem sempre se mostram tão magicas quanto no livro ou no curso, uma vez que o principal está sendo esquecido.
Investir na formação profissional é um compromisso do psicoterapeuta. Porém, é fundamental que não nos deixemos seduzir pelo pragmatismo do aprender algo fácil que pode ser replicado com todos os pacientes, e esquecer que a verdadeira sabedoria terapêutica consiste em poder utilizar tudo isso no momento em que o paciente precisa de fato.
Voltamos então as perguntas que não devem calar:
PARA QUE estou propondo isso agora, para essa pessoa, nessa relação?
EM QUE que isso está facilitando o processo de resgate de saúde para essa pessoa?
COMO isso se insere no contexto da história de vida dessa pessoa, de suas formas habituais adoecidas e suas possibilidades relacionais nesse momento?
Saber responde-las demanda muito investimento do psicoterapeuta. Demanda a adesão e o estudo profundo de uma abordagem de trabalho, demanda supervisão onde a possibilidade do olhar do outro sobre o que fazemos nos faz perceber o que não nos damos conta, demanda psicoterapia para que não façamos de nosso trabalho o depositário de nossas próprias interrupções e dificuldades.
Tudo isso não se consegue apenas nos livros ou em cursos rápidos e milagrosos.
Conseguimos com trabalho, investimento e compromisso. Temos uma responsabilidade. Precisamos honra-la.
Fiquem espertos para as propostas fáceis! Vocês querem técnicas? Certifiquem-se se vocês sabem de fato o que estão fazendo!
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17 janeiro 2013
A metodologia clinica em GT com crianças: o psicoterapeuta em ação (2)
Em postagem anterior, apresentamos a metodologia de trabalho em Gestalt-Terapia e apontamos seu desdobramento em 3 níveis de intervenção: descrição, elaboração e identificação. Discorremos sobre o nivel da descrição e, nesse momento, partiremos para a compreensão do que estamos denominando de elaboração e identificação.
Quando a criança aceita intervenções que
vão além da descrição, como questionamentos e propostas de experimentos,
estaremos atuando no nível da elaboração. É nesse nível do trabalho
fenomenológico que se localiza a grande maioria das técnicas gestálticas.
Como o próprio nome sugere, nesse nível, nossas intervenções têm
flagrantemente o objetivo de desdobrar, esmiuçar, desenvolver e aprofundar
aquilo que a criança vem trazendo ao espaço terapêutico. Cabe ressaltar que, a
maior parte das crianças, ao contrário do que a leitura da bibliografia disponivel muitas vezes sugere, demora muito a chegar nesse ponto de trabalho e nem sempre
se mostram tão desenvoltas ou produtivas como as crianças citadas nos livros.
Oaklander (1980), apesar de seus inúmeros relatos bem sucedidos de exploração
do material trazido pelas crianças, nos adverte:
“Não quero dar a impressão de que em toda
a sessão acontece algo de maravilhoso. Muitas vezes parece não acontecer nada
de abertamente excitante e importante” ( p.219).
Para algumas crianças o simples fato de poder brincar em um espaço
seguro, permissivo, acolhedor e confirmador com aquilo que ela queira escolher,
da forma como ela escolher, já é o suficiente para promover as reconfigurações
necessárias ao bem estar e ao resgate de um funcionamento saudável na sua
interação com o mudo.
A possibilidade de o psicoterapeuta ir ao encontro da criança em seu
espaço lúdico é de fundamental importância para a realização das intervenções.
Muitas vezes, ele precisará efetuar uma
intervenção dentro da brincadeira,
utilizando a linguagem lúdica. Isso nos remete a um outro ponto crucial:
a disponibilidade para brincar. Embora algumas crianças prefiram não envolve-lo
em suas brincadeiras, fazendo com que ele assuma o papel de observador,
constatamos que a grande maioria precisa que o psicoterapeuta faça parte dela.
Na medida em que a linguagem lúdica é a predominante, então a brincadeira é o
diálogo e o psicoterapeuta precisa participar.
Quando isso acontece, toda a atenção é pouca para que ele não se desloque
do seu papel de psicoterapeuta. Brincar com a criança não é tornar-se criança no
espaço terapêutico. Brincar com a criança não é reagir como se fosse uma
criança. Brincar com a criança é poder compartilhar da importância e da magia
daquela linguagem sem perder de vista a tarefa terapêutica. Inclusive porque,
esta tarefa, com algumas crianças, pode implicar em desempenhar impecavelmente
determinados papéis elaborados de forma minuciosa e distribuídos de acordo com
suas necessidades. Exemplos típicos são aqueles que contemplam a encenação de
situações cotidianas das crianças com os adultos, tais como mãe / filho,
professor/ aluno, e criança /médico, onde geralmente cabe ao psicoterapeuta o
papel da criança, e à criança o papel do adulto em uma típica inversão de
papéis, reveladora de muitos aspectos significativos de sua vida.
Várias crianças, ao desenvolver tais atividades, determinam
detalhadamente aquilo que o psicoterapeuta vai falar e a forma como ele deve
agir na brincadeira. Nessas situações, cabe a ele atende-la, inicialmente, em
todas as suas exigências no desempenho do seu papel. Muitas vezes, qualquer
tentativa de mudança introduzida por ele, é violentamente repelida pela criança,
o que significa que ainda não é a hora de questionar nada a respeito daquele comportamento ou
daquela situação, nem dentro nem fora da brincadeira.
Algumas crianças não
permitem que o psicoterapeuta saia da brincadeira para comentar coisas em
“off”; outras só aceitam intervenções dessa forma. Outras, principalmente as
menores, só permitem a aproximação ou qualquer intervenção dentro da linguagem
lúdica através de um personagem. Geralmente, quando chegamos ao final do
processo terapêutico, já é possível uma comunicação direta, sem intermediários,
sendo este elemento inclusive um dos indicadores de término do processo terapêutico.
O uso de fantoches ou “dedoches”
como recurso intermediário para a comunicação com as crianças vem trazendo bons
resultados em nosso trabalho. Concordando com Oaklander (1980), acreditamos que
o fascínio das crianças pelos fantoches se dê pela possibilidade de ter uma
parte de si mesmo – suas mãos e braços - literalmente envolvida na brincadeira,
dando “vida” a eles. A possibilidade de identificação com as diversas figuras
representadas pelos fantoches, particularmente as figuras míticas, como reis,
rainhas, bruxas, fadas, sacis, lobisomens e anjos, também parece contribuir
para isso.
Permite a “distância” necessária de uma figura humana “normal” para a projeção
de determinados aspectos que a criança ainda não tem condições de aceitar e
assimilar como seu.
O último nível de trabalho a que nos referimos é o que denominamos de
identificação. Ele consiste na apropriação, por parte da criança, dos conteúdos
de sua brincadeira e produção no espaço terapêutico. Em outras palavras, é
quando a criança se identifica com o elemento do desenho, ou com o menino
fantoche, ou com a escultura de argila, ou com o João Teimoso que só leva
pancada, etc.
Nossa experiência demonstra que nem sempre a identificação é necessária.
Muitas vezes, a partir da elaboração realizada através das intervenções
técnicas do psicoterapeuta na linguagem lúdica, a criança reconfigura e
resignifica seu campo sem que a identificação precise ser verbalizada.
Em
outros momentos, ela só realiza identificações claras na fase de término da
psicoterapia, quando começa a efetuar “retrospectivas” de seu processo
terapêutico.
Cabe ressaltar nesse ponto, que a realização de
identificações não deve ser esperada como um critério de “progresso” da
psicoterapia ou que sua presença deva figurar obrigatoriamente entre os
elementos indicativos de término; embora a identificação seja possível ela não
é condição obrigatória.
A expectativa ou a exigência de que isso aconteça
parece estar muito mais ligada à necessidade do psicoterapeuta do que
particularmente das crianças, principalmente as menores que, pelo fato de se
encontrarem em plena aquisição de suas capacidades cognitivas mais complexas e
por não apresentarem ainda sua linguagem totalmente desenvolvida, nem sempre
têm condições de realizá-la.
15 janeiro 2013
Pausa para falar de ética
Ola pessoal ,
Conforme disse na apresentação do blog, esse espaço foi criado para divulgar a Gestalt-Terapia com crianças, com base em um livro escrito por mim e publicado em 2005 e minha proposta, além de apresentar os fundamentos dessa abordagem na clinica com crianças, é a de abrir a possibilidade de trocar e discutir acerca das vicissitudes do gestalt-terapeuta de crianças sob o ponto de vista da prática fundamentada teoricamente.
No entanto, me vejo envolvida em situações bastante desagradáveis, envolvendo copias dos conteúdos do livro e do blog, sem o crédito de autoria, ou seja, pessoas usando o que eu escrevo como se fossem autoras.
É lamentável que tenhamos entre nós pessoas que desacreditam de sua capacidade de produzir com originalidade e estilo próprio e se apropriam descaradamente da produção alheia, que é fruto de muito trabalho e investimento de tempo.
É assustador pensar que são profissionais (!!??) como nós e que possuem acesso a pessoas no exercício de sua profissão. Que tipo de credibilidade tem um profissional assim ?
É ainda mais inquietante pensar que para um plagio descoberto, com certeza existem outros, escondidos em trabalhos de graduação TCCs, monografias e outros que não chegaram a internet.
Infelizmente, além do meu prazer em compartilhar conhecimento, experiencia e questionamentos com cada um de vocês, vou precisar destinar parte do meu tempo fazendo "varreduras" na internet para detectar ao menos os mais ousados, que não possuem o menor pudor de cometer um crime publicamente!
Lembrem que ao recomendarem, compartilharem ou divulgarem qualquer produção intelectual é preciso citar a fonte e dar a referencia completa do autor.
Espero que possamos continuar esse trabalho e que a generosidade de um profissional em compartilhar seu conhecimento não seja brindada pela má fé e falta de ética daqueles que não possuem competência e dignidade no exercício de sua profissão.
abraços para todos
Luciana Aguiar
P.S.: O site Pedagogia ao pé da letra possui um artigo publicado, intitulado A compreensão diagnostica em Gestalt-Terapia, cuja autoria é creditada a André Henrique Oliani, mas na verdade, é uma colagem quase integral de vários textos meus (inclusive com as minhas imagens!!), publicados no livro Gestalt-Terapia com crianças: teoria e prática e reproduzidos em parte nesse blog. Os momentos de confusão e truncagem do texto são justamente aqueles em que o "autor" tentou fazer pequenas modificações e sínteses certamente crendo que ao combinar frases ou começa-las com sinônimos estaria dando sua "originalidade" ao texto.
A imagem do post, veio daqui.
11 janeiro 2013
O papel das técnicas gestalticas na psicoterapia com crianças
A questão da técnica em Gestalt-Terapia vem sendo discutida ao
longo dos últimos anos em um progressivo deslocamento de foco das técnicas em
si, e seus poderosos resultados, para seu uso segundo uma postura fenomenológica
e dialógica.
Historicamente, a Gestalt-Terapia ficou bastante conhecida por
suas técnicas quase "mágicas", o que nos deixou herdeiros de uma série
de mal entendidos acerca de sua fundamentação, gerando até hoje, uma prática
mal fundamentada e, muitas vezes, baseada na "intuição" e no
"achismo".
Portanto, temos o objetivo de esclarecer o lugar da técnica no
trabalho do gestalt-terapeuta e a quais critérios ela encontra-se submetida.
Para começar, é importante ressaltar que vamos
chamar de técnica aquilo que podemos “fazer com isso”, para mobilizar
“aquilo”. Assim, quando falamos de desenho, por exemplo, não estamos nos
referindo a uma técnica mas a uma atividade realizada com alguns recursos
lúdicos, que poderia inclusive ser realizada em muitos outros ambientes
freqüentados pela criança além do espaço terapêutico.
O caráter terapêutico dessa atividade será dado pelo uso da técnica a partir do que foi produzido, como por exemplo, um pedido de descrição de um desenho realizado pela criança
na sessão. Sob esse ponto de vista, cada psicoterapeuta, a partir de sua
abordagem de trabalho e da sua metodologia, pode utilizar uma determinada técnica para trabalhar
o mesmo desenho.
Também é importante não confundirmos técnica com recursos
lúdicos: a argila, por
exemplo, não é uma técnica , mas um recurso que pode ser utilizado de diversas
formas pela criança; a
técnica incidirá naquilo que a criança
produziu com a argila ou na forma
como ela conduziu sua manipulação do material.
Sob o ponto de vista fenomenológico da Gestalt-Terapia, a
técnica serve para facilitar,
fomentar, fazer emergir e desenvolver o material oferecido a partir do que a criança escolhe realizar na sessão. Ela pode ser
apresentada na forma de
descrições, questionamentos ou de experimentos.
Poderá incidir sobre a linguagem
verbal da criança, sobre seu comportamento total na sessão terapêutica, sobre sua relação com o psicoterapeuta ou ainda sobre sua relação com os responsáveis. A
técnica incidirá sempre sobre o conteúdo e/ou sobre as formas de evitação do que emerge na sessão
terapêutica em um ininterrupto movimento de figura e fundo.
A alternância de intervenções entre forma e conteúdo é
característica dos processos terapêuticos de caráter holístico, uma vez que o
ser humano dentro dessa perspectiva não pode ser compreendido apenas por aquilo
que ele fala, mas a partir de seu comportamento total no campo terapêutico.
Dessa forma, ainda que possamos estar
munidos de uma variedade de técnicas, sua forma de utilização, bem como o
contexto em que serão utilizadas precisam estar em consonância com nossa
metodologia fenomenológica e inseridas dentro de uma perspectiva de relação
terapêutica dialógica.
Isto significa que jamais utilizaremos uma técnica que não surja
a partir da situação apresentada pela criança e que não seja possível dentro da
fronteira relacional criança-psicoterapeuta em um dado momento do processo
terapêutico.
Ao utilizarmos uma técnica dentro desses parâmetros,
necessariamente nos encontraremos em condições de afirmar para quê a estamos usando naquele momento, ou
seja, apresentaremos condições de argumentar teoricamente o seu uso. Saber o
que estamos fazendo é fundamental!!
É importante ressaltar que saber para que estamos usando aquela técnica com aquela criança e não outra técnica qualquer, não significa prever ou saber de antemão os desdobramentos de seu uso; uma vez
que trabalhamos com seres humanos singulares, jamais poderemos prever aquilo
que vai acontecer exatamente a partir da mobilização promovida por uma técnica,
mas podemos e devemos saber aquilo que queremos mobilizar, frustrar ou confirmar.
Da mesma forma, a técnica precisa responder as necessidades e
limites da criança em questão, porque aquela que se revela uma técnica
excelente para uma criança específica pode ser um desastre ou não fazer nenhum
tipo de sentido com outra criança. Costumamos usar para isso a metáfora da
ferramenta: não adianta usarmos um alicate, que é uma excelente ferramenta, em
situações que demandam uma chave de fenda. Assim, além de possuirmos as
técnicas, precisamos saber utiliza-las.
Acreditamos que, para saber utiliza-las, precisamos
paradoxalmente, esquece-las, deixa-las no fundo, de forma que possam emergir
criativamente nos contextos em que sua presença se fizer necessária para que
psicoterapeuta e criança continuem caminhando juntos na direção da expansão das
fronteiras da criança. E para que possamos esquecer-nos delas, precisamos
estuda-las, pratica-las e, sobretudo, experimenta-las. A familiaridade do
psicoterapeuta não só com as técnicas quanto com os recursos lúdicos é de
fundamental importância para a fluidez do seu trabalho que vai se assemelhar a
uma dança improvisada, porém realizada com passos seguros e bem formados.
Entramos então na
necessidade já mencionada em outras postagens, de uma sólida formação do
gestalt-terapeuta de crianças e que inclua necessariamente a possibilidade de
vivenciar uma gama significativa de técnicas e seus desdobramentos,
utilizando-se de uma diversidade de recursos lúdicos.
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