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15 agosto 2011

Marcadores de saúde em GT com crianças: autonomia e capacidade de realizar escolhas






É impossível pensar em independência, sem levar em consideração sua polaridade, a dependência, uma vez que este é o estado original do ser humano ao nascer e todo o seu desenvolvimento está alicerçado sobre tal binômio. Ao longo do desenvolvimento, observamos uma progressiva passagem da dependência total para a autonomia responsável típica do individuo adulto “saudável”. Esse processo é marcado por inúmeras vicissitudes e pode ser facilitado ou dificultado pelos adultos em seu desenrolar.

A dependência inicial implica necessariamente em uma apreensão do mundo pelo bebe através de introjeções fornecidas pelos adultos mais próximos. São esses adultos que apresentam o mundo para o bebe, que dizem quem ele é e o que são as coisas, bem como também são eles que proporcionam a satisfação da maioria das necessidades das crianças.

Com o progresso do desenvolvimento e as sucessivas aquisições de habilidades, que por sua vez possibilitam uma maior inserção da criança no mundo e uma maior autonomia para a percepção e satisfação de suas necessidades,  é necessário que a criança tenha possibilidades gradativas de discriminação, ou seja, de questionar as introjeções oriundas de seu ambiente, de que modo que ela possa se diferenciar como uma pessoa singular.

 Podemos assinalar dois tipos de discriminação que se apresentam sucessivamente ao longo do processo de desenvolvimento e que uma vez permitidas e facilitadas pelo ambiente constituem-se em peças fundamentais para o desenvolvimento da autonomia: a discriminação reativa e a discriminação criativa.

Denominamos de discriminação reativa o primeiro momento do processo de discriminação que consiste em simplesmente rejeitar aquilo que vem de fora e que é percebido como não sendo assimilável ou congruente com nossas necessidades. Observamos claramente o desenrolar desse processo desde o segundo semestre de vida, onde progressivamente os bebes começam a dizer “não”, inicialmente de forma não verbal – cuspindo a sopinha, por exemplo - e posteriormente, por volta dos dois anos, verbalmente, através de negações e confrontos.

Posteriormente, no correr do desenvolvimento, as crianças começam a experimentar a possibilidade de transformar, de criar em cima do que é dado, de negociar, de aproveitar algo que vem do mundo sem engoli-lo por inteiro e a esse processo damos o nome de discriminação criativa. A discriminação criativa não toma totalmente o lugar da discriminação reativa; ambas continuam coexistindo ao longo de toda a vida do indivíduo dando ao mesmo o suporte necessário para questionar, transformar e escolher diante das inúmeras demandas do mundo adulto.

Na adolescência, possuir uma capacidade de discriminação desenvolvida é de fundamental importância para superar sem grandes seqüelas o grande desafio de circunscrever e reafirmar uma identidade singular e entrar no mundo adulto.

Para que todo esse intrincado processo se dê, é fundamental que a criança tenha, sempre de acordo com as possibilidades cognitivas e emocionais de sua faixa etária, oportunidades de exercitar a capacidade de escolha, de tomar decisões e de enfrentar situações e resolver problemas, mesmo que isso redunde algumas vezes em frustrações, pois em toda escolha reside a responsabilidade sobre suas conseqüências e a possibilidade de errar.

Pais que superprotegem seus filhos, não permitindo que eles tomem decisões e se frustrem ou que, ao contrário, não os protegem daquilo que eles ainda não podem decidir e se responsabilizar, estão contribuindo para a construção de indivíduos inseguros, amedrontados e sem uma perspectiva clara de suas possibilidades de consecução e transformação no mundo.

 Assim, é necessário que pais e escola participem desse desenvolvimento, valorizando a capacidade da criança, ajudando-a no sentido de lidar com seus “fracassos”, aceitando o erro como parte do aprendizado, apoiando-a em suas decisões e não exigindo que ela realize escolhas “perfeitas” e definitivas.

Do contrário, a criança cresce acreditando que ela não é capaz de fazer  nada sozinha ou de que a palavra do outro é sempre mais pertinente e valorizada, demonstrando assim uma auto-confiança deficitária e uma baixa auto estima  permeando inúmeros aspectos de sua vida.

Tais condições nem sempre se apresentam na vida adulta de forma tão explícita; particularmente em nosso contexto atual, observamos um fenômeno que vem sendo amplamente discutido sob a denominação de adolescência estendida e que caracteriza a situação de um jovem adulto que apesar de possuir chances de desenvolver sua inserção no mundo, se recusa a assumir responsabilidades com elementos do mundo adulto, tais como a consolidação de uma carreira, a independência financeira, o separar-se geograficamente dos pais ou estabelecer uma relação afetivo-conjugal.

Dessa forma concluímos que o desenvolvimento do ser humano só pode ser encarado como um processo, o que significa que aquilo que vivemos num momento muito precoce de nossas vidas funciona como base e pano de fundo para muitas de nossas experiências atuais e que, assim, não podemos facilmente experimentar independência e autonomia na vida adulta se não tivemos a oportunidade de “exercita-las” ao longo de toda nossa vida.

Na situação de psicoterapia é fundamental observar a congruencia entre a faixa etária da criança e sua capacidade de autonomia e realização de escolhas. A iniciativa, a enunciação de suas necessidades, o risco da experimentação, a construção de solução para os desafios ali enfrentados e a capacidade de discriminar a sua "potencia" a cada momento, fazendo o que é capaz de fazer e podendo pedir ajuda para o que ainda precisa, sao pontos sempre trabalhados na relação terapeutica, ainda que a a "queixa" inicial aparentemente não esteja focada nisso, uma vez que sob nossa perspectiva holistica de ser humano, trabalhamos para o funcionamento saudável e não para extirpar sintomas. Faz parte da psicoterapia, criar oportunidades para a criança experimentar tudo isso e, assim, expandir seu repertório de possibilidades de ação no mundo.

Em outras palavras,  trabalharemos em cima das habilidades criadoras de cada criança, tais como discriminar, negociar e deliberar, possibilitando que elas desenvolvam  ferramentas que permitam-nas fazer frente as demandas do mundo em consonancia com suas necessidades.

Quem poderia dar exemplos de situações em psicoterapia onde tais questões são trabalhadas? Vamos conversar? Vamos trocar, gente!!??? Agora já temos 98 seguidores!!!! ALGUEM vai comentar algo, certo?

No aguardo....

2 comentários:

  1. Esse texto caiu como uma luva pra mim, afinal estava escrevendo agora um texto que envolve a falta de liberdade, independência e autonomia na fase adulta e das consequencias que isso poderá trazer para a pessoa. No inicio do texto fiz justamente uma comparação que enquanto alguns adultos não apresentam a possibilidade de fazer escolhas, muitas crianças ja demonstram sinais significativos disso, desde muito cedo. Vim aqui no seu blog ver se tinha alguma coisa sobre esse tema, pra que eu nao escrevesse nenhuma bobagem, ja que nao tenho mt experiência com crianças e encontrei esse texto maravilhoso. Embora eu ja tivesse terminado de escrever, valeu muito a pena.
    Beijos, Bárbara Cerejo.

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  2. Luciana parabéns pelo texto e pelo blog
    Estamos começando agora
    E gostariamos do seu apoio somos um grupo de pedagogas e psicopedagogas
    Beijos
    http://cirandadosaber2.blogspot.com/

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