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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Marcadores de saúde em GT com crianças: autonomia e capacidade de realizar escolhas






É impossível pensar em independência, sem levar em consideração sua polaridade, a dependência, uma vez que este é o estado original do ser humano ao nascer e todo o seu desenvolvimento está alicerçado sobre tal binômio. Ao longo do desenvolvimento, observamos uma progressiva passagem da dependência total para a autonomia responsável típica do individuo adulto “saudável”. Esse processo é marcado por inúmeras vicissitudes e pode ser facilitado ou dificultado pelos adultos em seu desenrolar.

A dependência inicial implica necessariamente em uma apreensão do mundo pelo bebe através de introjeções fornecidas pelos adultos mais próximos. São esses adultos que apresentam o mundo para o bebe, que dizem quem ele é e o que são as coisas, bem como também são eles que proporcionam a satisfação da maioria das necessidades das crianças.

Com o progresso do desenvolvimento e as sucessivas aquisições de habilidades, que por sua vez possibilitam uma maior inserção da criança no mundo e uma maior autonomia para a percepção e satisfação de suas necessidades,  é necessário que a criança tenha possibilidades gradativas de discriminação, ou seja, de questionar as introjeções oriundas de seu ambiente, de que modo que ela possa se diferenciar como uma pessoa singular.

 Podemos assinalar dois tipos de discriminação que se apresentam sucessivamente ao longo do processo de desenvolvimento e que uma vez permitidas e facilitadas pelo ambiente constituem-se em peças fundamentais para o desenvolvimento da autonomia: a discriminação reativa e a discriminação criativa.

Denominamos de discriminação reativa o primeiro momento do processo de discriminação que consiste em simplesmente rejeitar aquilo que vem de fora e que é percebido como não sendo assimilável ou congruente com nossas necessidades. Observamos claramente o desenrolar desse processo desde o segundo semestre de vida, onde progressivamente os bebes começam a dizer “não”, inicialmente de forma não verbal – cuspindo a sopinha, por exemplo - e posteriormente, por volta dos dois anos, verbalmente, através de negações e confrontos.

Posteriormente, no correr do desenvolvimento, as crianças começam a experimentar a possibilidade de transformar, de criar em cima do que é dado, de negociar, de aproveitar algo que vem do mundo sem engoli-lo por inteiro e a esse processo damos o nome de discriminação criativa. A discriminação criativa não toma totalmente o lugar da discriminação reativa; ambas continuam coexistindo ao longo de toda a vida do indivíduo dando ao mesmo o suporte necessário para questionar, transformar e escolher diante das inúmeras demandas do mundo adulto.

Na adolescência, possuir uma capacidade de discriminação desenvolvida é de fundamental importância para superar sem grandes seqüelas o grande desafio de circunscrever e reafirmar uma identidade singular e entrar no mundo adulto.

Para que todo esse intrincado processo se dê, é fundamental que a criança tenha, sempre de acordo com as possibilidades cognitivas e emocionais de sua faixa etária, oportunidades de exercitar a capacidade de escolha, de tomar decisões e de enfrentar situações e resolver problemas, mesmo que isso redunde algumas vezes em frustrações, pois em toda escolha reside a responsabilidade sobre suas conseqüências e a possibilidade de errar.

Pais que superprotegem seus filhos, não permitindo que eles tomem decisões e se frustrem ou que, ao contrário, não os protegem daquilo que eles ainda não podem decidir e se responsabilizar, estão contribuindo para a construção de indivíduos inseguros, amedrontados e sem uma perspectiva clara de suas possibilidades de consecução e transformação no mundo.

 Assim, é necessário que pais e escola participem desse desenvolvimento, valorizando a capacidade da criança, ajudando-a no sentido de lidar com seus “fracassos”, aceitando o erro como parte do aprendizado, apoiando-a em suas decisões e não exigindo que ela realize escolhas “perfeitas” e definitivas.

Do contrário, a criança cresce acreditando que ela não é capaz de fazer  nada sozinha ou de que a palavra do outro é sempre mais pertinente e valorizada, demonstrando assim uma auto-confiança deficitária e uma baixa auto estima  permeando inúmeros aspectos de sua vida.

Tais condições nem sempre se apresentam na vida adulta de forma tão explícita; particularmente em nosso contexto atual, observamos um fenômeno que vem sendo amplamente discutido sob a denominação de adolescência estendida e que caracteriza a situação de um jovem adulto que apesar de possuir chances de desenvolver sua inserção no mundo, se recusa a assumir responsabilidades com elementos do mundo adulto, tais como a consolidação de uma carreira, a independência financeira, o separar-se geograficamente dos pais ou estabelecer uma relação afetivo-conjugal.

Dessa forma concluímos que o desenvolvimento do ser humano só pode ser encarado como um processo, o que significa que aquilo que vivemos num momento muito precoce de nossas vidas funciona como base e pano de fundo para muitas de nossas experiências atuais e que, assim, não podemos facilmente experimentar independência e autonomia na vida adulta se não tivemos a oportunidade de “exercita-las” ao longo de toda nossa vida.

Na situação de psicoterapia é fundamental observar a congruencia entre a faixa etária da criança e sua capacidade de autonomia e realização de escolhas. A iniciativa, a enunciação de suas necessidades, o risco da experimentação, a construção de solução para os desafios ali enfrentados e a capacidade de discriminar a sua "potencia" a cada momento, fazendo o que é capaz de fazer e podendo pedir ajuda para o que ainda precisa, sao pontos sempre trabalhados na relação terapeutica, ainda que a a "queixa" inicial aparentemente não esteja focada nisso, uma vez que sob nossa perspectiva holistica de ser humano, trabalhamos para o funcionamento saudável e não para extirpar sintomas. Faz parte da psicoterapia, criar oportunidades para a criança experimentar tudo isso e, assim, expandir seu repertório de possibilidades de ação no mundo.

Em outras palavras,  trabalharemos em cima das habilidades criadoras de cada criança, tais como discriminar, negociar e deliberar, possibilitando que elas desenvolvam  ferramentas que permitam-nas fazer frente as demandas do mundo em consonancia com suas necessidades.

Quem poderia dar exemplos de situações em psicoterapia onde tais questões são trabalhadas? Vamos conversar? Vamos trocar, gente!!??? Agora já temos 98 seguidores!!!! ALGUEM vai comentar algo, certo?

No aguardo....

sábado, 23 de julho de 2011

Os responsáveis no processo terapeutico: sessões conjuntas e familiares




Uma outra forma de incluir os responsáveis no processo terapêutico da criança, é o que vamos denominar de sessões conjuntas. Do mesmo modo que o acompanhamento realizado através de sessões com o psicoterapeuta e os responsáveis, elas acontecerão de acordo com a demanda dentro do processo terapêutico.

Vamos dar o nome de sessões conjuntas às sessões realizadas em algum momento do processo terapêutico com a presença da criança e um ou mais de seus responsáveis bem como de demais membros da família que possam ser significativos para a criança naquele momento.

Essa participação dá-se a partir de um “convite” realizado pela criança com o auxílio do psicoterapeuta, que pode ou não ser aceito, e que consiste em acompanha-la em uma de suas sessões de psicoterapia. Os níveis de intervenção priorizados nas entrevistas conjuntas são a facilitação da comunicação entre os membros, a promoção de aware­ness e a expansão de fronteiras tanto da criança quanto dos responsáveis.

Em outras situações, quando entendemos que o processo terapêutico pode ser beneficiado com a participação direta dos membros da família, realizamos sessões com a presença de todos. Estas sessões, ao longo do processo terapêutico, costumam ser muito esclarecedoras a respeito de como a psicoterapia da criança está afetando a dinâmica auto-reguladora da família, que elementos novos emergiram no grupo familiar para fazer frente às mudanças da criança, e o quanto eles estão sendo facilitadores ou não.

No momento do término da psicoterapia, é fundamental que o trabalho se dê concomitantemente com a criança e seus responsáveis, ou seja, na medida em que o término pode começar a ser enunciado, precisamos introduzir essa questão no acompanhamento dos responsáveis. Em alguns momentos, eles trazem tal questão para o acompanhamento quase que ao mesmo tempo em que a criança o faz em suas sessões.

Outras vezes, ao falarmos de término, logo percebemos que vamos ter mais trabalho com eles do que propriamente com a criança. Muitos ficam inseguros a respeito de seus próprios recursos para lidar com eventuais dificuldades da criança em um momento posterior ou receiam que ela ainda não tenha condições de enfrentar o mundo sem o suporte da psicoterapia.

Não é raro, após realizarmos a sessão final com a criança, encontrarmos ainda com os responsáveis duas ou três vezes até finalizarmos o processo terapêutico. De modo geral, sempre realizamos uma sessão de fechamento com eles após a sessão final com a criança. No entan­to, nem sempre uma sessão é suficiente para trabalhar todas as ansiedades, fantasias e expectativas que se encontram em jogo.

Quanto à possibilidade de trabalharmos com uma criança sem o acompanhamento da família ou com uma participação ínfima de um ou mais de seus membros, acreditamos que em alguns casos é possível, embora muitas vezes seja frustrante para o psicoterapeuta e insuficiente para a criança.

Algumas configurações familiares encontram-se tão cristalizadas e o lugar ocupado pela criança tão sedimentado que a criança, sozinha, não é capaz de confrontar tal organização. Nesse ponto é que o trabalho com os responsáveis tem a sua justificativa, pois é o que, vai possibilitar que a criança tenha o seu lugar “liberado” nessa configuração e assim possa realizar outros ajustamentos criativos em sua interação no mundo.

De qualquer forma, entendemos que a psicoterapia, ainda que sem a “colaboração” da família ou interrompida precocemente, representa um registro importante na vida da criança, pois é um espaço único e, muitas vezes, um tipo de relação nunca experimentada por ela, nem antes e nem depois. Ter a referência de que existe a possibilidade de se estabelecer uma relação onde se é respeitada, aceita, confirmada, ouvi­da, acolhida e levada em consideração, pode ser decisivo na vida posterior de muitas delas.

Ainda que seus contextos se mostrem adversos, ainda que seus pais jamais tornem-se facilitadores e acolhedores, ainda que ela encontre em seu caminho muitas pessoas que a decepcionem, acreditamos firmemente que saber, a partir da experiência na relação terapêutica, que existem outras formas de relacionar-se e que podem existir pessoas em quem confiar, pode fazer uma pessoa encarar suas dificuldades de forma diferente.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A inserção dos responsáveis no processo terapeutico das crianças

Ao longo do processo psicoterapêutico, estabelecemos o que denominamos de “acompanhamento de pais”. Optamos por não usar os termos “orientação” ou “aconselhamento”, pois embora eles apontem para alguns níveis do trabalho realizado com os pais, deixam de lado o que nos parece mais importante, que é o trabalho de promoção de awareness a respeito das implicações dos responsáveis nas questões apresentadas pela criança em sua interação no mundo.
O acompanhamento familiar dá-se por intermédio de sessões com os responsáveis e o psicoterapeuta da criança, e de acordo com a demanda deles ou do psicoterapeuta, tendo como foco a relação que eles estabelecem com a criança.
O objetivo é ouvi-los a respeito de como eles vêm percebendo o processo terapêutico e a criança fora do âmbito da psicoterapia, tirar dúvidas e realizar esclarecimentos a respeito de temas relativos ao desenvolvimento infantil, conversar sobre questões específicas que eles tenham necessidade, e oferecer questionamentos e devoluções que o psicoterapeuta julgue pertinentes ao andamento do processo.
Essa freqüência de atendimentos, não é previamente estabelecida, por en­tendermos que a psicoterapia é da criança e não dos responsáveis e que, portanto o enquadre que pressupõe sessões fixas não seria o mais adequado para os propósitos do trabalho que denominamos de acompanhamento de responsáveis.
Ao longo dessas sessões, com o foco na relação criança/responsáveis, há quatro níveis diferenciados e complementares de intervenção: infor­mação, orientação, sensibilização e facilitação da comunicação entre seus membros. Eles formam uma totalidade articulada e só possuem sentido como parte dessa totalidade. A caracterização do acompanhamento familiar estaria prejudicada se deixássemos de lado qualquer um dos níveis de intervenção.
Gostaríamos de destacar particularmente o terceiro nível de trabalho que denominamos de sensibilização e promoção de awareness. De nada adianta apenas informá-los e orientá-los a respeito de uma determinada característica ou situação se eles não podem fazer aquilo que seria facilitador para a criança. E cer­tamente de nada adianta o psicoterapeuta prescrever tarefas como se sua autoridade profissional fosse o único fator relevante no campo.
Pelo con­trário, nesse momento, inúmeros elementos emergem, particularmente os que impedem e/ou dificultam a consecução de determinada orientação e é fundamental que o psicoterapeuta identifique-os e focalize-os para ampliar a awareness dos responsáveis a respeito do que os está impedindo de agir de uma determinada forma.
Se apenas informamos os pais acerca de determinado tema ou situação, muitas vezes eles ficarão com a informação, sem saber exatamente qual seria a melhor forma de utiliza-la em prol da criança em questão.
Da mesma forma, se além da informação, o psicoterapeuta intervem no sentido de ajuda-los a implementar algo baseado na informação, ainda assim seu trabalho não está completo uma vez que os pais nem sempre possuem condições de operar modificações em sua forma de se relacionar com a criança em função de suas próprias obstruções de contato.
Dessa forma, é fundamental que possamos ajuda-los a perceber  seus próprios impedimentos e dificuldades que de alguma forma encontram-se articulados com a problemática apresentada pela criança, para que assim, de posse dessa nova “consciência”, tenham mais opções de compreensão de seus motivos e suas escolhas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Auto-regulação familiar: a implicação dos responsáveis nos sintomas apresentados pelas crianças



             Sustentados por uma concepção holística e contextual de ser humano, trabalhamos com a premissa acerca da existência de uma vinculação entre diversos aspectos do desenvolvimento  infantil e as mais variadas formas sob as quais as crianças e suas famílias se apresentam na situação clínica, o que inclui seus sintomas, suas reações às intervenções terapêuticas e suas possibilidades e recursos para alcançar um estado de saúde e bem estar.
Entendemos o contexto familiar como um dos particularmente signifi­cativos para o desenvolvimento e funcionamento saudável da criança, uma vez que não só é o primeiro contexto do qual faz parte como aquele que parece ser o mais relevante em seus primeiros anos pelo forte vínculo de dependência existente entre ela e a família, que se apresenta como uma significativa promotora de experiencias cruciais de apreensão e assimilação das  novidades que o mundo vai oferecendo para a criança.
A noção de auto-regulação familiar, ou seja, de que os membros de uma família se influenciam mutuamente, reagem e respondem as expectati­vas e necessidades do outro na busca de um equilíbrio, é fundamental para compreendermos a forma como a criança se apresenta, porque o que vamos perceber é que ela geralmente está servindo como um ponto de equilíbrio para toda a dinâmica familiar.
Sob esse ponto de vista, somente a partir da relação que o sintoma apresentado pela criança estabelece com as demais partes da totalidade mais ampla em que ela encontra-se inserida é que se pode compreender sua origem, seu sentido, sua razão de ser e suas influências e implicações. 
Assim, quando nos referimos à família como um dos principais campos a fornecerem sentido as manifestações da criança, enfatizamos seu papel crucial na vida e no desenvolvimento infantil e, portanto, na eclosão, manutenção e remissão dos sintomas que se apresentam na clínica.
Enfatizamos o binômio criança/família, na medida em que não podemos pensar no desenvolvimento infantil sem a presença marcante do meio familiar, particularmente da mãe ou quem por ventura estiver exercendo seu papel.
O bebê humano nasce completamente dependente e com pouquíssimos recursos para lidar com as demandas do mundo. Por isso, inicialmente, estabelece uma relação de muita proximidade com a mãe, constituindo o que denominamos uma unidade relacional, marcada pela indiferenciação entre o bebê e a mãe. É nessa relação, onde o bebê será cuidado, protegido e alimentado, que ele encontrará a possibilidade de construção e desenvolvimento.
Esse desenvolvimento caminha sempre na direção de uma maior independência e autonomia, na medida em que a criança vai crescendo e ampliando seus recursos físicos, cognitivos, emocionais e sociais e, assim, obtendo uma maior inserção no mundo. A função da família é a de propiciar oportunidades de crescimento, de facilitar a aquisição de recursos próprios da criança e de permitir que a mesma tenha autonomia e responsabilidade compatíveis com sua faixa etária e seu potencial.
 Uma vez que o desenvolvimento é processual e gradativo, constatamos que quanto mais nova a criança, maior a probabilidade de encontrarmos um vínculo mais extenso de dependência e, portanto um binômio criança/família mais acentuado.
A implicação direta dessa característica básica do desenvolvimento humano,  é a de que sempre que lidarmos com crianças, nossos clientes não serão apenas as crianças, mas a totalidade criança/família, onde todos os elementos precisam ser levados em conta para uma efetiva compreensão diagnóstica e, principalmente para uma evolução satisfatória do encaminhamento terapêutico.
Compreender a forma de funcionamento da família é de crucial impor­tância para o gestalt-terapeuta infantil já que ela se apresenta como o prin­cipal campo em que a criança faz parte. Entender sua dinâmica nos permite compreender o funcionamento da criança em questão e estabelecer prioridades de intervenção com os responsáveis ao longo do processo tera­pêutico.
Ao trabalharmos com a criança, passamos a fazer parte do seu campo, promovendo mudanças em seus padrões relacionais e ocasionando desequi­líbrios momentâneos na dinâmica familiar que, se puderem ser vivenciados e superados, promovem o crescimento e reconfiguração de toda família para formas mais satisfatórias de relação.
No entanto, o psicoterapeuta precisa ficar atento para que o impacto na dinâmica familiar não seja maior do que aquele que determinada família pode suportar, realizando seu acompanha­mento ao longo do processo terapêutico de forma a ajudá-la a lidar com as modificações e encontrar caminhos possíveis de auto-regulação mais satis­fatórios.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Recursos Ludicos (2): critérios para escolha




Mencionamos em postagem anterior o valor terapeutico dos fantoches como recurso na psicoterapia com crianças. Porém, contamos com uma gama mais ampla de recursos ludicos indicados para utilizarmos como facilitador da expressão e comunicação da criança com o psicoterapeuta no espaço terapêutico.

O psicoterapeuta iniciante, nem sempre possui clareza a respeito de quais recursos obter, quais seriam os indispensáveis e os irrelevantes, o que demanda o estabelecimento de alguns critérios para obte-los.

Os critérios básicos para a escolha dos recursos lúdicos são: segurança e relevância para a tarefa terapêutica. Por segurança, entendemos recursos de boa qualidade, produzidos com material atóxico, que não sejam facilmente quebráveis, fortes o suficiente para manipulações mais rudes e que não ofereçam nenhum tipo de risco.  Qualquer uso dos recursos que possam colocar em risco a integridade da criança, do psicoterapeuta ou do espaço – uma tesoura para agredir o psicoterapeuta, tinta atirada nas paredes ou ainda um barbante apertado em torno do pescoço - deve ser imediatamente limitado segundo os princípios básicos de apresentação de limites.

Quanto à relevância dos recursos para a tarefa terapêutica, os critérios de aquisição precisam estar focados naquilo que eles podem oferecer como estímulo para a criança compartilhar sua experiência. Ficam vetadas, nesse ponto, escolhas baseadas em necessidades do psicoterapeuta, muitas ligadas às suas próprias frustrações infantis, o aproveitamento sem critério dos brinquedos dos filhos que já cresceram, ou doações aleatórias de parentes, vizinhos ou instituições. Uma especial atenção para a tentação de levar brinquedos ou jogos com valor sentimental (aquela boneca que esteve presente durante toda a sua infância e que agora não tem mais utilidade ou o jogo de gamão que já passou por várias gerações da família.

Não podemos esquecer que os recursos lúdicos encontram-se disponíveis para as crianças usarem da forma como precisam e, por isso, não podem ser alvo de limitações de uso que não sejam as básicas, e nem da disfarçada, porém presente, preocupação do psicoterapeuta a respeito de sua manipulação.

Todos os recursos devem ser de construção simples e fáceis de manejar, para  que a criança não fique frustrada com um equipamento que não consiga manipular. A psicoterapia já fornece por si só diversos elementos frustradores como o término do horário da sessão, o tempo de espera entre uma sessão e outra, a impossibilidade de levar os brinquedos para casa, etc.

Eles devem ser duráveis e construídos para resistir ao uso freqüente. Quanto mais simples, maior a possibilidade de criatividade lúdica. Por esse motivo, brinquedos mecânicos e sofisticados não são sugeridos porque acabam não permitindo múltiplos usos, manipulações e diversificações de significados.

Outro detalhe é a respeito dos recursos que não temos disponíveis, aqueles que as crianças perguntam e/ou solicitam, mas não existem no espaço terapêutico. É preciso partir da constatação de que é impossível ter tudo o que uma criança poderia nos pedir em termos de recursos.

Ainda que fosse possível ter ou providenciar todos os que elas pedissem, esta ação não seria facilitadora para o desenvolvimento de suas potencialidades, de seus recursos para lidar com a falta, com a frustração, com os limites, com a capacidade de fantasiar, de fazer de conta, de solucionar o problema de outra forma, de reparar a frustração e de construir com os recursos disponíveis aquilo de que ela precisa.

Essa talvez seja uma das experiências mais emblemáticas e bonitas da psicoterapia: possibilitar que a criança dê solução à seguinte questão: “como eu posso manipular criativamente o meio para suprir minha necessidade através de caminhos satisfatórios?

Dessa forma, não possuir no espaço terapêutico tudo o que as crianças solicitam, acaba se revelando uma oportunidade para trabalhar inúmeros elementos relevantes no seu processo, uma vez que isso a confronta com o novo, aquilo com que ela não está acostumada, aquilo que a retira de sua “zona de conforto” e, portanto, a instiga em sua fronteira de contato.

Diante disso, é preciso que ela entre em contato com suas potencialidades não desenvolvidas em busca de recursos criativos para lidar com a situação. Não possuir computador ou vídeo game, por exemplo, é uma vantagem se pensarmos que nada poderia ser mais familiar para algumas crianças e , por isso , pouco desafiador.

Não é por acaso que, inúmeras vezes, constatamos que as escolhas iniciais das crianças, particularmente as que se encontram mais enrijecidas e cristalizadas em seus padrões relacionais, recaem sobre recursos que elas conhecem e dominam muito bem, o que faz com que algumas crianças perseverem durante várias sessões na escolha do mesmo recurso lúdico e da mesma atividade, para o desespero dos psicoterapeutas mais apressados. 

O “desafio” que provoca a expansão das fronteiras é experimentar materiais novos, explorar outras funções de contato, buscar outras formas de satisfação das necessidades que não as habituais. É nesse sentido que o espaço é terapêutico. Ele promove transformação na fronteira de contato organismo-meio através do contato, discriminação e assimilação do novo, possibilitando uma reconfiguração dessa relação estabelecida com e no mundo. 

Apesar disso, o critério de aceitação e respeito pela escolha que a criança pode realizar, ainda que isso signifique jogar damas por inúmeras sessões, continua valendo como soberano na condução da psicoterapia, ainda que com intervenções gradativas do psicoterapeuta sempre com a intenção de mantê-la trabalhando “na fronteira”.

Podemos dividi-los em dois grandes blocos, segundo a forma predominante de estímulos fornecidos à criança. No primeiro bloco, temos os recursos lúdicos estruturados que, como a própria expressão indica, possuem uma estrutura prévia carregada de significado consensual e, geralmente, costumam atrair a atenção das crianças exatamente a partir desse significado.

Apesar de mencionarmos que as crianças são atraídas prioritariamente para os recursos estruturados a partir de seu significado consensual, muitas vezes, elas utilizam-nos subvertendo seu uso rotineiro e criando outros sentidos a eles, apontando-nos assim sua capacidade para manipular criativamente o meio para satisfazer suas necessidades.

No segundo bloco estão os denominados recursos não estruturados que, pela sua própria natureza, não possuem uma estrutura prévia com um significado consensual atribuído e prestam-se prioritariamente, à expressão da experiência da criança com atribuição de significados próprios.

Na sequencia, teceremos comentários sobre o uso de alguns desses recursos tal como fizemos com os fantoches, ok?

Você tem algo a acrescentar, alguma duvida, comentário??? Comente!!!!!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Conversando sobre crianças

Ola  pessoal!

Segue o link da nova pagina no Facebook: Conversando sobre crianças
Lá conversaremos sobre temas tipicos do universo criança-familia-escola, sem que haja necessariamente um cunho psicoterapeutico.
A idéia é abrir a conversa para pais, educadores e pessoas que de um modo geral lidam com crianças e suas questões.
Visitem, sugiram temas, discutam, perguntem, comentem, ok?

beijos para todos!








A metodologia clinica em GT com crianças: o psicoterapeuta em ação

O método de abordagem do ser humano utilizado pela Gestalt-terapia é o método fenomenológico, que se caracteriza pelo uso de uma linguagem descritiva, que se opõe a uma linguagem interpretativa e a uma linguagem do tipo prescritiva.
 Estou denominando de linguagem interpretativa aquela que concede um significado para o material  trazido pela criança, estabelecido a partir de um conhecimento  teórico a priori, realizando assim uma interpretação daquilo que a criança diz ou apresenta através do uso que faz dos recursos lúdicos.
Em uma linguagem prescritiva, o psicoterapeuta determina e estabelece formas específicas de uso dos recursos lúdicos pela criança de forma que ela possa resolver aquilo que ela traz para o espaço terapêutico como um problema.
Já o método descritivo da Gestalt-Terapia possibilita que a criança, através das intervenções descritivas do psicoterapeuta, construa gradativamente o significado do material que traz para a sessão terapêutica, sem a interferência de qualquer a priori do terapeuta, seja ele de caráter teórico ou oriundo de seus próprios valores.
Cabe assinalar que quando nos referimos ao método fenomenológico da Gestalt-Terapia como um método descritivo, não estamos reduzindo a atuação do psicoterapeuta a técnica de reflexão conforme nos é apresentada por Axline (1984) onde o psicoterapeuta somente descreve aquilo que a criança diz ou faz ao longo da sessão.
Ao caracterizarmos o método fenomenológico como descritivo estamos nos referindo não só as intervenções puramente descritivas do material trazido pela criança como também as intervenções do psicoterapeuta na forma de perguntas ou propostas que funcionam como um “convite” para a criança descrever sua experiência e, com isso, expandir suas fronteiras e alcançar novos significados para aquilo que foi descrito inicialmente.
Nesse aspecto, ao compararmos as duas abordagens observamos um papel mais ativo do psicoterapeuta de abordagem gestáltica que, sem abandonar o caráter descritivo da intervenção, fomenta um desenvolvimento maior do material trazido pela criança.
O processo terapêutico se desenvolve com a utilização do método fenomenológico, desdobrado em três  níveis de intervenção:  descrição, elaboração e identificação. 
É importante ressaltar que não estamos trabalhando com a noção de fases ou estádios que obrigatoriamente aconteçam dessa forma e nessa ordem. Um psicoterapeuta pode em uma sessão passar pelos três níveis; num outro momento ou com outra criança pode levar todo o processo terapêutico para percorrer esses níveis; em outras situações, um processo terapêutico pode chegar ao fim sem que trabalhemos dentro do nível da identificação.  
O nível da descrição é o nível mais básico de trabalho e provavelmente aquele em que começamos com  a grande maioria das crianças que vem a psicoterapia. Estabelecer uma comunicação no nível da descrição é a única possibilidade que a criança fornece ao psicoterapeuta inicialmente; isso significa que o psicoterapeuta basicamente descreve seu comportamento, realiza na medida do possível alguns questionamentos ao longo das brincadeiras, e solicita que ela descreva suas produções.
Não é raro permanecermos nesse nível durante muito tempo da psicoterapia e, isso não é bom ou ruim, somente sinaliza aquilo que o cliente pode num determinado momento.
Ao que tudo indica,  quanto mais comprometida a criança maior sua dificuldade de ultrapassar a descrição pura e simples, pois seus mecanismos de evitação de contato costumam ser mais elaborados e suas funções de contato mais distorcidas.
Um exemplo típico da criança que só permite que o psicoterapeuta trabalhe na descrição é aquela que ao ser solicitada que comente uma produção sua, a descreve com meia dúzia de palavras, quando a descreve, e passa logo para outra atividade ou responde a algum questionamento com “não sei”, ou não aceita nenhuma proposta do psicoterapeuta ou ainda faz de conta que não ouviu ou ainda profere a frase bastante conhecida dos psicoterapeutas de crianças: “vamos brincar de outra coisa?”.
Todos esses comportamentos sinalizam para o psicoterapeuta a presença de  uma rígida fronteira de contato que deve ser respeitada, embora não deva ser deixada de lado. Isso significa que sempre que nos pegarmos insistindo em algo com uma criança em psicoterapia é sinal de que estamos desrespeitando sua  sinalização de fronteira; costumamos afirmar que as crianças sempre nos mostram quando parar, nós é que muitas vezes não conseguimos perceber tais sinais.
Por outro lado, respeitar suas fronteiras não significa deixar de tentar expandi-las, se acomodando aquém da fronteira da criança e transformando a psicoterapia num espaço de fortalecimento e consolidação da evitação do contato.
O movimento com a criança é sempre de vai e vem; no que tocamos na fronteira e recebemos um sinal positivo, vamos  um pouquinho mais adiante; se não há resistência tentamos mais um pouquinho e assim por diante; se tocarmos na fronteira e o sinal for negativo, recuamos e voltamos depois; se o sinal continua negativo, novamente recuamos para voltar num momento posterior, e assim vamos até poder avançar um pouquinho mais.
É importante assinalar que o fato de uma criança não permitir que o psicoterapeuta saia do nível da descrição em seu processo terapêutico não significa que “a terapia não está andando” ou seja, que o psicoterapeuta é incompetente e/ou a criança não está sendo beneficiada.
È muito surpreendente e não muito incomum verificar, através do acompanhamento dos pais ou de uma visita à escola, que a criança vem apresentando uma série de  transformações em sua forma de estar e se relacionar no mundo, assim como se referindo de forma positiva e investida ao processo terapêutico, embora o psicoterapeuta muitas vezes tenha a impressão de que nada está acontecendo ou que não há possibilidade de transformação uma vez que a criança “não entra” em nenhuma de suas propostas e parece não estar ouvindo suas  intervenções.
Por outro lado, é obvio que se temos essa impressão e os demais elementos do campo a corroboram, seria fundamental uma profunda avaliação de nossa compreensão diagnóstica e da natureza da relação que estamos travando tanto com a criança quanto com seus responsáveis, bem como da pertinência de nossas intervenções.
Continuaremos na proxima postagem, ok: Deixem seus comentários, duvidas e reflexões!!!