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01 março 2011

Objetivos da GT com crianças e o papel do psicoterapeuta (3): resolvemos problemas?

Da mesma forma que não trabalhamos para cuidar de alguém, tampouco o fazemos para resolver seus problemas.
Perls afirmava que a Gestalt-Terapia não se interessa por problemas, mas pelas pessoas e suas possibilidades de criação diante da novidade que se apresenta a cada momento de sua existência como ser no mundo.
Em outras palavras, o interesse do gestalt-terapeuta repousa nos recursos de cada um para lidar com o que a vida possa apresentar e com a possibilidade de transformar o que encontra em algo assimilável e nutritivo.
Não nos cabe resolver os problemas apresentados pelos responsáveis, pelas instituições que abrigam a criança ou pela própria criança. Interessa-nos a habilidade que cada um deles possui (ou não) para lidar com os eventuais problemas que surgem em suas vidas, com os recursos e capacidade para criar novas alternativas mais satisfatórias e as possibilidades que temos para mobilizar tal manancial em cada um de nosso clientes.
Quando uma queixa é vista como um problema a ser resolvido ou eliminado, a manifestação da criança é considerada como algo “fora” do campo, sem nenhuma relação com os demais elementos constitutivos do mesmo.
Pais que trazem seus “filhos problema” com o intuito de obter uma resolução para seus comportamentos, não costumam ter a menor percepção de suas implicações nas manifestações da criança. Grande parte de nossa tarefa terapêutica será exatamente implicá-los na gênese e manutenção de tais manifestações, mobilizando sua participação ativa no processo terapêutico da criança.
G. tem 11 anos e é trazido para psicoterapia de modo que o psicoterapeuta descubra “porque ele é preguiçoso e não gosta de estudar”. É visto pelos pais como uma “criança ótima”, que apresenta “só esse problema”.
Em nenhum momento os pais mostram-se minimamente implicados na dificuldade escolar de G. e o apelo ao psicoterapeuta é claro: “encontre a razão do defeito e conserte-o”.
No contato com G. percebemos que além de se descrever como preguiçoso, tal como os pais o descrevem, G. se emociona e chora ao falar da tristeza da mãe com suas notas e da raiva do pai quando ele não acerta toda a tarefa de casa ou responde adequadamente aos questionários.
Na segunda sessão mostra-se bastante energizado falando do irmão mais velho, revelando uma série de sentimentos de ciúme e a presença de inúmeras comparações familiares no que diz respeito ao desempenho escolar de ambos. Queixa-se também de não ter condições facilitadoras para estudar e fala do processo de aprendizagem e do desempenho escolar como algo que não lhe pertence.
Parece-nos muito claro nesse caso o quanto que a questão apresentada por G. encontra-se totalmente embricada nas relações que o mesmo estabelece com seus familiares e que, longe de traçar com G. planos para melhorar sua forma de estudar ou suspeitar de um comprometimento orgânico na atenção ou concentração visando uma possível medicação, o trabalho do psicoterapeuta consiste em descrever e elucidar as formas habituais neuróticas que perpassam tais relações familiares e que não permitem a G. apropriar-se de sua vontade de saber, sua curiosidade e suas possibilidades de produção e criação, ficando refém do desejo da mãe que o ameaça com a preferência em relação ao filho mais velho e receoso da ira do pai.
Assim, se adotarmos o papel de solucionador de problemas, responderemos ao apelo neurotico da familia, contribuindo para manutenção da auto regulação disfuncional, contribuindo para o aprisionamento da criança no papel de "doente" ou "problemático", sem que ela possa desenredar-se da trama que a mantem nesse lugar.
Cabe ao psicoterapeuta ficar atento as suas proprias reaçoes e motivações, para que não caia no apelo familiar, abandonando a tarefa terapeutica e tornando-se mais um agente impeditivo do livre fluir do processo de desenvolvimento da criança.
Ficam as perguntas:
Em que medida conseguimos dizer "não" ao apelo dos pais e instituições?
Até que ponto podemos abrir mão de nosso próprio juizo de valor acerca do que seja um "problema"?
Convite para refletir.....

2 comentários:

  1. ótimo post, ótimo texto. Parabéns! Ficarei seguidor do blog para aprender mais e mais.
    grato
    Luiz Carlos Flho
    lucafilho@hotmail.com

    ResponderExcluir
  2. Ola Luiz Carlos! Seja bem vindo!
    Comentários, sugestões, criticas e perguntas...todos bem vindos também!
    Assim não me sinto falando para as paredes...rs
    Muito grata!
    Luciana

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